Exemplo prático para comprar uma casa em França

Jim e Kate querem comprar uma casa de férias em França. Mas França é um país grande - por isso eles têm algum trabalho pela frente, para delimitar as suas opções.

Jim quer verões claros e sem chuva, muitos trilhos para caminhadas e bosques por perto, dado que são ambos caminhantes assíduos, e a apenas uma curta viagem de carro de uma cidade razoavelmente grande - apesar do casal estar disponível para comprar um imóvel numa vila ou pequena cidade.

A Kate é mais prática. Ela quer comprar num local onde os imóveis sejam relativamente baratos - por isso, grande parte da Provença fica de fora - e onde haja uma grande procura por parte de turistas, para que eles possam arrendar a casa temporariamente, para ajudar a pagar as contas.

Eles começam por consultar dois mapas - um mapa dos preços dos imóveis em França no website dos Notários de França, e um mapa de horas anuais de luz solar no site do instituto de meteorologia Meteo France. Eles reparam que Limoges é a cidade mais barata da lista e está mesmo no ponto onde o laranja começa a ficar mais vermelho, o que indica um maior número de horas de sol.

Kate começa a procurar casas perto de Limoges, em sites de agências imobiliárias. Entretanto, o Jim decide ir à biblioteca, buscar alguns livros sobre a região, para que possam passar o fim-de-semana a ver fotografias da zona e talvez restringir ainda mais a sua pesquisa. A Kate apaixona-se imediatamente pelas imagens de Plateau de Millevaches e as suas aldeias graníticas, mas repara que muitas das casas para venda precisam de obras de renovação; eles não querem envolver-se num projecto grande. No entanto, as boas notícias é que todos os imóveis que encontram são muito económicos. A Kate procura na zona arrendamentos para as férias e faz alguns cálculos para ter uma estimativa de quanto poderão ganhar, ao arrendar a casa dois meses por ano.

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Сomo procurar uma casa?

Nesta altura, eles estão prontos para planear uma visita a França e ver alguns imóveis com um agente imobiliário. Há vários agentes que falam inglês na zona, por isso eles optam por um que tem vários imóveis na área.

O agente pergunta se eles pensaram sobre a área habitacional em metros quadrados e qual a dimensão do jardim que pretendem - algo que eles não fizeram. No entanto, o Jim salienta que como ambos trabalham, eles não vão passar lá o verão inteiro, por isso, a manutenção do jardim pode ser um entrave se este for muito grande. Eles referem que procuram uma casa que possa ser facilmente arrendada para férias. Eles também são questionados sobre se querem ver casas um pouco mais distantes.

Eles decidem marcar quatro dias, para lhes dar tempo suficiente para explorar a zona e verificar se é adequada para eles e também para visitar imóveis de uma forma mais tranquila. A Kate leva o seu tablet para poder tirar fotos e notas quando fazem as visitas. Visitar três imóveis por dia acaba por ser ser mais do que suficiente numa área rural remota!

Duas das casas que visitam estão muito perto da estrada principal e outra fica numa aldeia bastante degradada. Mas ao terceiro dia, eles vêem uma potencial escolha, a alguns metros da principal praça de uma pequena e harmoniosa aldeia. Precisa de uma nova decoração, mas fora isso, está em bom estado de conservação. Eles têm mais um dia para procurar casas, mas o Jim diz imediatamente, “Nós podemos muito bem fazer uma proposta por esta”.

Nessa altura, eles oferecem 10% abaixo do preço pedido e a oferta deles é aceite. Agora começa o trabalho com a papelada. Em primeiro lugar, eles obtém do agente um sumário com o compromis de vente, que têm de assinar e devolver. A partir daqui, eles ainda podem recuar sem qualquer obrigação nos dez dias seguintes. Eles pagam um depósito de 10% nesta fase.

A Kate fez o trabalho de casa sobre o planeamento financeiro e há uma clause suspensive, que dita que a venda só é concluída mediante a aprovação do financiamento necessário. Eles também adicionaram uma cláusula que estipula a condição da casa ter de passar por uma inspeção estrutural - tal não é comum em França, mas como a casa tem mais de duas centenas de anos, eles querem uma garantia que a mesma vai manter-se de pé no próximo século ou dois! Eles contratam um inspector licenciado no Reino Unido (RICS) que se mudou para França, apesar de poderem recorrer a um arquitecto ou engenheiro francês, mas eles estão habituados às inspeções feitas ao estilo britânico.

Eles têm uma cópia do diagnostique da sua casa, que demonstra que a mesma está livre de amianto, apesar de terem sido usadas algumas tintas à base de chumbo nos caixilhos das janelas - mas a instalação eléctrica está atualizada e a fossa séptica está de acordo com as regulamentações, por isso, não precisam gastar dinheiro nas coisas básicas. Mas, não se trata de uma inspeção estrutural completa e é por esse motivo que eles adicionam a clause suspensive extra e contrataram um construtor local. Felizmente, a casa tem cores agradáveis - sem necessidade de trabalhos de carpintaria, sem risco de subsidência do solo e sem problemas.

A Kate e o Jim já são proprietários de uma casa em Birmingham, da qual estão a pagar um crédito à habitação. Eles têm capacidade para comprar a casa francesa a pronto, mas isso deixaria-os quase sem fundos no banco para lidar com alguma eventualidade e como salienta a Kate, não seria uma decisão fiscalmente sensata, se obtiverem rendimentos do arrendamento. Eles poderiam hipotecar a sua casa no Reino Unido, mas isso coloca a casa deles em risco - se eles obtiverem um crédito à habitação francês, fica assegurado sobre o imóvel francês. Eles também têm uma boa taxa de juro fixa na sua casa, por isso não querem negociar uma hipoteca com uma taxa de juro desvantajosa.

Eles optam por um crédito à habitação francês e decidem recorrer a um intermediário para encontrar o melhor negócio. O intermediário avisa-os que eles vão apenas receber o certificado de pré-aprovação, não a garantia de crédito, até que tenham concluído a aquisição do imóvel - o banco liberta o financiamento após receber o acte de vente assinado. Eles ficam satisfeitos por descobrir que as taxas de juro francesas são muito mais baixas do que no Reino Unido e mantêm-se fixas por 25 anos. Mas nem todos os bancos franceses estão disponíveis a emprestar um valor tão baixo, por isso o intermediário tem de fazer algumas pesquisas.

Por esta altura, eles ficam contentes por terem acertado em dois pontos. Em primeiro lugar, eles ficam felizes por o agente os ter avisado sobre as taxas envolvidas na compra - eles reparam que aquilo que pensavam que seria uma casa de 40 mil euros, na realidade, ultrapassou os 48 mil euros, depois de terem de pagar os emolumentos notariais e as taxas do crédito à habitação. E também ficaram felizes por terem feito várias fotocópias dos seus passaportes, certidões de nascimento, recibos de vencimento e comprovativos de morada, porque pedem-lhes repetidamente esses documentos. “É a França”, diz-lhes o agente - “paperasse!” (Tradução: burocracia).


Quatro meses depois, é-lhes pedido que se dirijam ao Cartório Notarial para a assinatura da escritura. Mas antes, para sua surpresa, é-lhes pedido para visitar a casa novamente, para verificar que está tudo em ordem e que a esta está no estado em que estavam á espera. Não é invulgar, o vendedor decidir levar consigo os equipamentos e mobiliário da cozinha! Mas hoje não há nenhum imprevisto e eles comparecem no Cartório Notarial, onde o contrato é lido pelo notário - e, em seguida, têm de assinar cada uma das 42 páginas do contrato.

Eles deixam o Cartório Notarial com as chaves da sua nova casa de férias francesa na mão e o attestation de propriété, que vai ser útil quando tiverem de lidar com o funcionalismo francês e com o próximo item da sua lista de tarefas - a abertura de uma conta bancária francesa!